Viajo na minha mente, buscando respostas plausíveis.
Não as encontro e me deixo enganar.
Procuro pequenas soluções para arrancar a angustia do coração.
Sei que as respostas estão alem da minha compreensão, mas mesmo assim não desisto de encontrá-las.
Não entendo o que vejo e nenhuma pessoa consegue me explicar.
Vidas imersas na vaidade, na luxuria do supérfulo.
Deparo-me com uma situação emocionante, revoltante e para mim humilhante.
Para o meu próximo esses adjetivos seriam substituídos por necessário.
Um simples chinelo e um pacote de macarrão fazem-me ver que meus desejos de consumo se tornam pequenos, eles na verdade são apenas uma luxuria que se deve contestar se realmente é necessária.
Uma pessoa arrancar espinhos com as mãos para justificar a humilhação de mendigar um pacote de macarrão, sem ligar para a dor que facilmente é superada com a lembrança do dia anterior sem um alimento digno para se alimentar.
Andar descalço e de barriga vazia tentando mudar a sorte ao final do dia.
Muitas vezes migalhas e restos para nós, para eles se transformam em grandes banquetes.
Pessoas que quando recebem a promessa de algumas peças de roupa, são pontuais chegando no horário e no dia marcado.
Pontualidade que poucos cumprem com prazer e satisfação, quando se dirigem ao trabalho.
Eles não brigam, não lutam por um aumento, não sabotam empresas, não derrubam chefes.
Eles acordam na madrugada, saindo sem destino na esperança de achar o nosso lixo, que poderá assegurar mais um dia de vitória, na luta pela sobrevivência.
Muitos ficam loucos, deixam de tomar banho, perdem a dignidade, superam a dor e a vergonha.
O sofrimento verdadeiro pode fazer transformações no ser humano, pode nos ensinar a lutar e nos tornar pessoas melhores.
Em contrapartida pode causar um sentimento de inferioridade.
Um animal não merece a discriminação e o descaso que essas pessoas são sujeitadas, imagine um ser humano.
Conheci um catador de papelão que nos mostra, que o pouco tem um grande valor para quem foi esquecido e descartado pela sociedade.
Após uma mudança, caixas de papelão tomarão conta de minha casa nova.
Caixas que foram prometidas a outro catador de papelão, mas que não retornou no dia combinado para buscá-las.
Chego a minha casa após um passeio de bicicleta, e um catador vai passando na rua.
O dia está muito quente, ele resolve parar na frente da minha casa e com muita educação nos pede um copo d’água.
Minha mãe entra em casa para buscar seu copo d’água.
Ele faz um pequeno comentário com o seu carrinho praticamente vazio.
“A rua hoje não está boa”.
Uma senhora que conversava com minha mãe pouco antes de eu chegar, faz um pequeno comentário.
Ela diz: “-verdade, hoje está muito calor para sair na rua”.
O que para ela e para mim seria motivo de reclamação, para ele não é nada que não possa ser superado.
Ele responde: “-eu não me refiro ao sol, estou me referindo que a rua está ruim, porque não tem muito lixo para eu recolher.”
“Isso é o que eu posso fazer, por causa do desemprego, já andei muito hoje, mas não consegui muito lixo para vender”.
Eu me lembro das caixas de papelão que o outro catador não veio buscar, entro em casa e converso com a minha mãe para que as de para esse catador.
Minha mãe concorda e ofereço o papelão para ele.
Sua alegria é tamanha, que supera o semblante de um rosto cansado pelo sofrimento e pelo trabalho exaustivo em um dia de muito sol.
Ele não me perguntou quantas caixas eu tinha para dar, e muito menos o tamanho da caixa.
Eu tenho certeza que se fosse apenas uma caixa, a alegria dele seria a mesma.
Enquanto ele passa o dia revirando lixos por toda a cidade, no meu caso eu só preciso ir a um supermercado e pedir.
Como já aconteceu muitas vezes que precisei de uma caixa, eles vieram com varias que eu poderia escolher ou levar todas de uma vez.
A diferença entre eu e o catador não está no caráter, na bondade.
Está em eu ter uma roupa que não esteja rasgada, ter um perfume para passar.
A sociedade impõe padrões.
Quem se encaixa é paparicado e quem não tem condições é humilhado e descartado.
Minha mãe o informa que assim que a casa estiver em ordem, teremos algumas roupas para doar.
Ele pergunta se tem uma previsão, que com certeza ele passará.
Pois bem no dia e hora marcado ele aparece, mesmo sem saber se terá apenas uma camiseta para receber, se as roupas estão rasgadas, se são bonitas e do seu agrado.
Ao chegar ao nosso portão com um sorriso no rosto, a primeira coisa que ele faz é nos desejar um bom dia.
Suas palavras não ecoam a tristeza de uma vida dura e com muito sofrimento.
Suas palavras transbordam uma alegria contagiante.
Esse homem me ensinou muito mais, que qualquer faculdade no mundo poderia me ensinar.
Enquanto escrevo esse depoimento, minhas duvidas e indignações foram embora.
Pois ele me ensinou que o mínimo de recursos que ele não tem, e que para a maioria da população seria lixo, para ele é de suma importância.
Ele sai todos os dias de madrugada e usa o seu suor para manter a esperança de um dia melhor.
Quando uma pessoa reclama por causa de uma roupa não ser da marca desejada, por causa de um carro velho que já esta na hora de ser substituído, por uma casa que não tem o espaço que o nosso sonho diz que merecemos e por muitas outras coisas, que realmente temos que analisar se são dignas de noites em claro, de brigas e de stress.
Temos que aprender, que podemos viver com o que temos em mãos, olhar do nosso lado e ver que tem pessoas que foram forçadas a sobreviver com o nosso lixo.
Pessoas que muitas vezes são mais educadas, mesmo sem ter estudado.
Parar com o preconceito que toda pessoa humilde é um bandido.
Pois a moda nos dias de hoje é usar paletó e gravata para roubar.
Pensar em ajudar e dar oportunidades para as pessoas que realmente precisam, e não apenas ajudar as pessoas que nos trazem fama e status.
Diminuir a publicidade em torno da nossa suposta bondade, e não ajudar apenas em épocas comemorativas para atrair a atenção da mídia.
Esse rapaz não conversou em gírias, não estava alcoolizado ou drogado.
Ele soube nos tratar com respeito, foi mui educado.
Ele é apenas um exemplo entre muitos que foram esquecidos por todos nós.
Ele demonstra precisar apenas de uma oportunidade.